quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010
segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010
Na estrada
“The Road”, de Cormac McCarthy, é um livro impressionante: o norte-americano escreve de forma enxuta, brutal e poética sobre um pai e um filho que rumam ao sul num mundo pós-apocalíptico e bárbaro, de paisagens calcinadas e aparentemente sem futuro. No meio de “homens maus”, eles são os “homens bons” que tentam manter o fogo da humanidade aceso. É uma história de amor, de devoção e de aprendizagem para a morte e para a vida, porque aquele pai sabe que não durará muito mais tempo. Um tema certamente caro ao escritor, ele que é um septuagenário com um filho pré-adolescente.A adaptação de John Hillcoat é irrepreensível. Deixa espaço à imaginação, não tenta explicar nem mostrar tudo, é feito com uma grande sensibilidade e dureza. A fotografia é magnífica: imergimos num mundo desbotado de cinzas e de naturezas mortas, um mundo inimaginável e depressivo onde alguns se recusam a terem apenas de sobreviver. Mas há os irredutíveis. Viggo Mortensen faz uma poderosa interpretação no papel do pai que protege o seu filho de forma quase animal, esse filho que já nasceu num mundo sem passado e sem futuro. A sua luta é protegê-lo, acreditando que o rapaz pode ainda transportar a centelha que não o deixará resvalar para a barbárie. Ainda há esperança. O mundo não perderá a alma enquanto existirem homens bons.
O filme é uma adaptação fiel do livro de McCarthy. Talvez demasiado fiel, demasiado submissa e literal. O problema é que não traz nada de novo, não expande o livro, não o complementa. Não há dúvida de que preferiremos sempre o livro ao filme, ainda para mais tendo sido escrito por Cormac McCarthy.
Ora, o caso de Manoel de Oliveira é exemplar nesta história das adaptações de livros para o cinema. Fez inúmeros filmes partindo dos livros da Agustina Bessa-Luís e nunca teve pruridos em meter a sua colherada, em fazer trinta por uma linha, em ser livre, criando sempre um filme original (goste-se ou não) que não teve de fazer vénias à literatura. Isto sim é ambição e criatividade.
terça-feira, 5 de Janeiro de 2010
domingo, 3 de Janeiro de 2010
Brave New World
“Avatar” vale pelo novo mundo que nos faz ver, de plantas extraordinárias, árvores sagradas, animais fabulosos que lembram as criaturas angulosas de Dalí, montanhas flutuantes saídas de um quadro de Magritte, um mundo verde, azul e fosforescente onde embarcamos com deslumbramento.
O argumento é que é fraco: sucedem-se as fórmulas, os gestos convencionais e estereotipados e senti pontadas de déjà vu, como se se tivessem enxertado bocados das histórias do Rei Leão, da Pocahontas ou do Shaka Zulu.
Coloquei com gosto os óculos 3D, gozei com os olhos da infância este novo mundo de James Cameron, mas continuo a preferir, definitivamente, um cinema de carne e osso.
O argumento é que é fraco: sucedem-se as fórmulas, os gestos convencionais e estereotipados e senti pontadas de déjà vu, como se se tivessem enxertado bocados das histórias do Rei Leão, da Pocahontas ou do Shaka Zulu.
Coloquei com gosto os óculos 3D, gozei com os olhos da infância este novo mundo de James Cameron, mas continuo a preferir, definitivamente, um cinema de carne e osso.
quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009
quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
Homens na Lua
“Moon”,de Duncan Jones, tem uma dormência arrastada, uma monotonia e umas cores que me fazem lembrar o “2001: Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick. A claustrofobia assalta-nos quando entramos no mundo pequeno e mecânico daquele homem que trabalha sozinho na Lua, há três anos, em prol da sustentabilidade do Planeta Terra. Está a poucas semanas do regresso a casa, mas este homem está a esvair-se (o actor é brilhante na encarnação do verdadeiro caco humano). Pensamos que é depressão: estar a falar para máquinas durante três anos e estar sozinho na Lua quando se tem uma loura amantíssima em casa deve dar cabo de um homem.Mas existe o Gerty para fazer companhia e trabalhos domésticos. O Gerty é um robot abnegado de voz pausada e reconfortante, programado para o serviço e para a bondade cega. Este Gerty não tem nada a ver com o HAL 9000 do Kubrick, de maldade inteligente e caprichosa.
O filme avança, misterioso, com uma banda sonora hipnótica; mas às tantas o enredo torna-se confuso, até desconjuntado: há um acidente, um homem que recupera os sentidos e uma nova personagem surge para ocupar um lugar naquela estação lunar. Ficamos às aranhas. Será outra alucinação? O que se passa na cabeça daquele homem que já é dois? Mas as peças vão encaixando, desmontando-se no final uma maquinação de terráqueos experimentalistas e desalmados.
Pensávamos que tudo aquilo se passava na cabeça de um homem, que era tudo mais estranho, mas afinal o enredo de pura ficção científica (bem esgalhado é certo, mas um pouco banal) acabou por tomar conta do filme e entristecemos um pouco. O que não lhe retira o mérito de ser uma obra de suspense muito interessante que nos faz pensar sobre a vida humana. Tão efémera.
segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
Um filme bem amanteigado
Tudo começou com um livro: "Mastering the Art of French Cooking" (primeira edição de 1961) da chef americana Julia Child, uma espécie de Susan Boyle do fogão.
Depois veio o blogue de Julie Powell, "The Julie/Julia Project", que escapou a uma vida frustrada enfiando-se na cozinha com um objectivo: cozinhar as 536 receitas do livro de Julia Child em 365 dias, o que incluía cozer lagostas vivas, desossar um pato e usar a divina manteiga. A caixa de comentários do blogue de Julie (que paira ainda na blogosfera) empanturrava-se e a sua empreitada gastronómica, très chic, tornou-se um fenómeno. Julia Powell escreveu um livro a contar a experiência, que vendeu como pãezinhos quentes, e a sua vida deu agora um filme que nos deixa o estômago confortado e quentinho, realizado por Nora Ephron.
São histórias reais que se cruzam. A de Paul e Julia Child, que Meryl Streep encarna na perfeição, com todos os decibéis e gestos no lugar, é uma verdadeira delícia; a de Julie e Eric é mais difícil de engolir: o jovem casal dos subúrbios que faz pela vida e pela relação, no meio de dramas existenciais, de crises de choro, vaidades e manjares celestiais.
Como um belo sonho americano, tudo acaba bem, e saímos confortados com esta sobremesa cinéfila, que se digere muito bem, como as farófias da minha mãe.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
