segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Mon Chéri



“Chéri”, de Stephen Frears, que adapta o romance de Colette, parece aquele bombom. Um papel de embrulho a dar para o requintado, o som do fru-fru quando se desembrulha, depois o sabor doce a chocolate cortado por um travo forte a licor e, metida lá dentro, uma cereja enrugada.
O ambiente da Belle Époque é recriado com muito charme e requinte e o filme é narrado com humor. Há um toque de frivolidade e perversidade em tudo aquilo, que assenta bem ao rol de protagonistas, as profissionais do amor e seus frequentadores.
Léa, a caminho da meia-idade, envolve-se com Chéri, uns bons vinte anos mais jovem que ela, porque o menino se aborrece e porque lhe dá prazer. Esse é o momento doce da história, que começa a amargar, quando, passados seis anos de relacionamento, o rapaz tem de casar, convenientemente. A partir daqui, é ver o sofrimento de ambos que não podem viver um com o outro, nem um sem o outro e isso é um pouco atroz, como o licor daquele bombom. No final do filme, a cereja, enrugada mas ainda muito bela, fita-nos de um espelho com os olhos parados em estupefacção e lucidez. Mas este pequeno confeito do Frears não chegou para me adoçar a boca.

sábado, 10 de outubro de 2009

Cinema-amor


“O Sangue”, de Pedro Costa, faz 20 anos. João Bénard da Costa aparece nos extras do DVD a ler no meio de um bosque um manuscrito onde discorre sobre o filme. Ninguém falava com tanto amor sobre cinema como o Bénard. É um deleite vê-lo passar as folhas do seu bloco A4 e ouvi-lo falar, na sua voz arranhada, sobre o punhado de sequências que o fascinam neste filme duro e terno, a preto e branco, cheio de frases secas, de planos feitos a régua e esquadro, acompanhado de uma banda sonora tão incongruente e tão certa.
E Bénard a falar da clamorosa bofetada que abre o filme, do belíssimo plano com as árvores tortas, da sequência do trio que passa a duo amoroso, daquela exortação “Pede-me coisas” (que é um nó na garganta, de tão bela), dos dedos esculpidos do menino que dorme e que se agita num pesadelo e que lhe faz lembrar uma escultura que viu em Itália.
No ano passado, Pedro Costa foi convidado para programar a festa dos 50 anos da Cinemateca. Calhou justamente no dia dos meus anos e foi numa sala escura que os festejei, alegremente. Agora percebo por que razão Pedro Costa escolheu passar o filme “So dark the night” (1946), de Joseph H. Lewis, um film noir que conta a história de um detective francês de meia-idade que se recolhe no campo para repousar e se apaixona. No dia do noivado, a sua jovem noiva desaparece, para aparecer morta, tal como o seu antigo namorado. E o detective chegará à conclusão que foi ele, inconscientemente, o autor dos dois crimes: l’ amour fou. Pedro Costa justificou a escolha deste filme um pouco incógnito pela geometria de cada plano e, de facto, tudo parecia estar rigorosamente no sítio certo e era esse artifício tão evidente e tão regrado que lhe dava toda a força e beleza.
Sempre gostei de filmes aprimorados e com excessos de zelo e “O Sangue” emociona por ser uma luminosa declaração de amor ao grande cinema das frases contundentes, dos gestos dramáticos e dos planos construídos com cuidados de artesão.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Distrito 9

"District 9" é um filme primorosamente bem construído e imensamente credível. Grande parte dele é uma reportagem televisiva, cheia de grão e de vivacidade. Esse expediente é o seu maior trunfo e o que o torna próximo de nós. É fundo, complexo e arrebatador porque não se trata já do primeiro encontro, romantizado, entre humanos e alienígenas. Nesta história, esse encontro aconteceu há 20 anos e revelou-se um imenso pesadelo logístico e moral.
Os fantasmas do "apartheid" sul-africano são recuperados nesta fábula de extraterrestres animalizados, um milhão deles fechados há 20 anos num bairro decrépito de Joanesburgo, de terra alaranjada, suada e criminosa, incapazes de voltarem à sua nave-mãe que se avariou e que se mantém imóvel no céu.
Com o aumento dos crimes, dos desacatos e dos motins, os humanos já não toleram os "gafanhotos". Aqui entra a organização MNU, chamada para pôr em marcha uma campanha de deslocalização dos refugiados alienígenas. E tudo conforme a lei: levam papéis para os bichos fazerem um rabisco de consentimento e, se tiverem sorte, ainda fazem controlo de natalidade e apreendem armas tecnologicamente avançadas, mas que só funcionam, hélas, com alienígenas.
À frente desta façanha está o atinado e crédulo Wikus van der Merwe, o herói improvável do filme. Quando é infectado com um fluido negro que o vai transformando em "gafanhoto", torna-se alvo da cobiça dos humanos que vêem nele um trunfo biotecnológico, que precisa de ser esquartejado a bem do progresso científico e militar. A partir daqui, desenrola-se uma história de sobrevivência, com laivos de "ET" e de "Enemy Mine", bem servida de cenas de acção e comoção. Wikus, meio humano, meio alienígena, junta forças com um "gafanhoto" inteligente, com uma qualidade humana, diríamos, que se reflecte nos seus grandes olhos de ambâr (não é por acaso que o ET também tinha olhos grandes. Está tudo nos olhos).
O filme, inteligentemente, acaba em suspenso, e, com força, faço figas para que não haja sequelas.


quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Cinema e Ambiente


Ciclo Cinema & Ambiente (Cinemateca + Programa Gulbenkian Ambiente)


O objectivo deste ciclo de cinema é motivar uma discussão alargada com o público sobre a temática ambiental, contando para isso com o contributo de personalidades públicas de áreas diversas, convidadas para comentar os filmes.


A segunda sessão do ciclo, comentada por Inês Pedrosa, realiza-se a 13 de Outubro com o filme alemão Die Wolke (“A Nuvem”), de Gregor Schnitzler, 2006, em que dois jovens vivem uma relação amorosa no contexto de um acidente nuclear perto de Frankfurt que lança o pânico no país.

As sessões do ciclo Cinema & Ambiente são todas de entrada livre e realizam-se mensalmente na Cinemateca.

10 Nov, 21h30: Medicine Man (“Os Últimos Dias do Paraíso”), de John McTiernan, 1992. Comentado por Susana Fonseca

15 Dez, 21h30: The Trigger Effect (“Efeitos na Escuridão”), de David Koepp, 1996.
12 Jan, 21h30: Five, de Arch Oboler, 1951

9 Fev, 21h30: Soylent Green (“À Beira do Fim”), de Richard Fleischer, 1973

9 Março, 21h30: Into the Wild (“O Lado Selvagem”), de Sean Penn, 2007. Comentado por Paula Moura Pinheiro

13 Abril, 21h30: Les Glaneurs et la Glaneuse (“Os Respigadores e a Respigadora”), de Agnès Varda, 2001. Comentado por Helena Roseta

11 Maio, 21h30: Wind across the Everglades (“A Floresta Interdita”), de Nicholas Ray, 1958.

8 Junho, 21h30: Le Monde du Silence, de Jacques-Yves Cousteau e Louis Malle, 1956.

O ciclo Cinema & Ambiente termina no dia 13 de Julho com o filme The Happening (“O Acontecimento”), realizado por M. Night Shyamalan em 2008, numa sessão comentada por Viriato Soromenho-Marques, Coordenador Científico do Programa Gulbenkian Ambiente.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

MOTELx 2



"Re-Animator" (1985), de Stuart Gordon, é um filme insano e fenomenal. Herbert West é um cientista que descobre um fluido capaz de dar vida a tecidos mortos. Depois de conseguir reanimar um gato morto, entra na morgue do hospital universitário onde estuda e começa, sem peias, a testar doses em corpos humanos, que não ressuscitam beatificamente como Jesus, mas como bestas descontroladas, para gáudio do espectador. Quando o Dr. Carl Hill, o pérfido neurocirurgião, quer apoderar-se da descoberta, perde, literalmente, a cabeça e torna-se no vilão mais arrepiante e espantoso que já vi, de morrer a rir, com alguns esgares de nojo à mistura. "Re-animator" é um clássico do terror que adorei descobrir.



Antes, passou a curta-metragem de Fernando Alle, "Papá Wrestling", que pôs o auditório ao rubro. Sempre que este papá brindava com uma morte atroz os miúdos que tinham roubado a lancheira ao filho, a plateia explodia a rir. Ver um imponente luchador mascarado, vestido de cor-de-rosa, a esborrachar crânios e pernas de crianças é uma cena deveras risível. E não estou a ser irónica.

domingo, 6 de setembro de 2009

MOTELx 1


Dei logo de caras com o John Landis quando subia a escadaria do Cinema São Jorge para experimentar, pela primeira vez, o Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. Foi um bom augúrio. Estreei-me numa sessão especialíssima: "A Dança dos Paroxismos", filme de 1929 de Jorge Brum do Canto, musicado, ao vivo, por Legendary Tigerman e Rita Redshoes. Foi um momento absolutamente mágico. A música soou-me cintilante, bem entrosada naquele velho filme que espantava pelo arrojo técnico e pela beleza simples. A história tem por base um "poemeto" de Leconte de Lisle, "Les Elfs". Conta a história nefasta de um cavaleiro galante que se detém no Reino dos Silfos, onde se cruza com a rainha Banschi. Esta bela, ao pousar a sua mão branca no peito do cavaleiro, desencadeia uma desgraça: a noiva roliça que o esperava morre e o cavaleiro segue-a na agonia.
O filme é hipnótico, expressionista, onírico. Gostei dos planos sobrepostos, dos rostos recortados no céu, que ficavam a pairar no ecrã, e a música, discreta, não se impunha, nem se exibia. Até a ingénua legendagem era um regalo para os olhos.


quinta-feira, 6 de agosto de 2009