
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
Buffalo Soldiers

domingo, 14 de novembro de 2010
Somewhere over the rainbow
"9", o filme de animação realizado por Shane Acker, com co-produção de Tim Burton e algumas vozes de luxo (Christopher Plummer, Martin Landau ou Elijah Wood), mostra um universo de quinquilharia, ferrugento, silencioso, cinzento e vazio. O mundo acabou numa guerra entre homens e máquinas e todas as formas de vida se esvaíram. Restaram nove bonecos de trapos, aos quais um cientista insuflou vida. Cada um deles é um pedaço da sua própria alma e a sua missão é restaurar a vida na Terra e erradicar o poder da "Máquina" que em tempos o cientista criou amorosamente, mas que se virou depois contra a Humanidade. segunda-feira, 8 de novembro de 2010
C'um catano!

Com este Machete do Robert Rodriguez, fiquei de olho arregalado. É um gozo de tão tosco, a começar pelo protagonista (Danny Trejo), um federale mexicano justiceiro, armado de navalhas e catanas, com olhos sapudos, rosto tisnado e cheio de sulcos que pareciam cortados à faca. O filme tem violência a dar com um pau, mulheres desnudas e avantajadas, um chorrilho de vinganças fumegantes, muita catanada, carros quitados, mexicanos em fúria, armamento e até uma cena gore onde o Machete salta de uma janela agarrado a 18 metros de entranhas. A história é o menos. Mete o dedinho nalgumas feridas. O diálogo é curto e grosso. O que interessa mesmo é ver os braços velhos e musculados do Machete em fúria, é ver a deliciosa personagem do padre armado até aos dentes, benza-o Deus, o “puñeta” do Steven Seagal e o seu harakiri e, no final, o Machete a levar a sua miúda (Jessica Alba) vestida de couro no coiro da mota. Em suma, um grande filme de gajo, onde as gajas também se riem.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Matrioska onírica

Sempre que via o trailer de “Inception” ficava cativada por aquela atmosfera de mistério e estranheza, onde se via gente a lutar no ar, em gravidade zero, piões de metal a girar, grandes edifícios a desmoronarem-se, uma rapariga a gritar que a acordassem e depois aquele som cavernoso a servir de música. Não percebia patavina daquilo, mas aguçava a curiosidade. Já vi trailers muito mais bem conseguidos que os próprios filmes, mas “Inception” não desiludiu, nem por sombras.
O argumento é complexo, cheio de camadas, mas é perfeitamente inteligível. Dom Cobb é um “extractor” de segredos, atormentado pelo passado. Os furtos passam-se dentro da mente dos seus alvos, enquanto dormem, e para isso são precisos arquitectos para construírem o cenário daqueles sonhos. Um dia, Dom é forçado a aceitar o trabalho de implantar uma ideia, em vez de a roubar e, a partir daqui, somos deliciosamente arrastados num tropel de acção e suspense onde há pessoas que sonham um sonho, dentro de um sonho, dentro de um sonho e onde vamos descobrindo a história trágica de Cobb e de Mal e do seu mundo de luz e sombras. A história é verdadeiramente original e emocional e não nos deixa baixar a guarda. O lote de actores é soberbo, todos eles carregados de carisma. Para mim, não há ali actores secundários. E sempre aquela música de fundo, como um barco de grande porte a apitar, e que nos arrepiava a espinha.
terça-feira, 16 de março de 2010
“We’re all mad here. I’m mad. You’re mad”

Xeque-mate. A Alice de Tim Burton surpreendeu-me. Gostei do mundo negro, violento e alucinado de “Underland”, muito longe de uma visão açucarada e mimosa à maneira da Disney, que eu temia. Esta nova leitura da Alice de Lewis Carroll é uma lufada de ar fresco. Tem ritmo, tem graça e a história continua de forma inteligente, respeitando o que existe de “muchness” nas personagens de Carroll: a Alice aos 19 anos (talvez já um pouco mais inteligente) mantém a impertinência inocente e o domínio das criaturas que povoam o País das Maravilhas e surge com uma nova energia guerreira que me agradou. Mas a personagem mais enigmática e bem conseguida daquele lote é o chanfrado chapeleiro com exoftalmia, um poço de ambiguidade, meigo e violento, que tem às vezes uma voz profunda e trágica, arrepiante. O impacto visual da Rainha de Copas é tremendo, a Rainha Branca é desconcertante, o guarda-roupa é arrojado (sobretudo o de Alice), o ambiente é claustrofóbico. Fiquei rendida.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
Encher a mochila
"Nas nuvens" começa com um genérico fabuloso. Os genéricos são importantes para mim. Comecei a gostar do filme por aí, pelos planos sucessivos onde víamos bocados de terra norte-americana do ar. Mas entra-lhe pela vida adentro um pequeno drama familiar (o casamento da irmã, que mal conhece), uma nova mulher (igual a ele, que ele pensa conhecer) e uma jovenzinha calculista e insegura que põe em risco o seu modo peculiar de trabalhar e o seu brio profissional. Aprende, afinal, que vale a pena carregar alguma coisa às costas (o amor, a família) e encher a mochila, mesmo que as correias apertem até doer. Mas aqui não há finais felizes. E ficamos com a sensação de que a mochila de Ryan Bingham ainda vai demorar a encher-se.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Na estrada
“The Road”, de Cormac McCarthy, é um livro impressionante: o norte-americano escreve de forma enxuta, brutal e poética sobre um pai e um filho que rumam ao sul num mundo pós-apocalíptico e bárbaro, de paisagens calcinadas e aparentemente sem futuro. No meio de “homens maus”, eles são os “homens bons” que tentam manter o fogo da humanidade aceso. É uma história de amor, de devoção e de aprendizagem para a morte e para a vida, porque aquele pai sabe que não durará muito mais tempo. Um tema certamente caro ao escritor, ele que é um septuagenário com um filho pré-adolescente.A adaptação de John Hillcoat é irrepreensível. Deixa espaço à imaginação, não tenta explicar nem mostrar tudo, é feito com uma grande sensibilidade e dureza. A fotografia é magnífica: imergimos num mundo desbotado de cinzas e de naturezas mortas, um mundo inimaginável e depressivo onde alguns se recusam a terem apenas de sobreviver. Mas há os irredutíveis. Viggo Mortensen faz uma poderosa interpretação no papel do pai que protege o seu filho de forma quase animal, esse filho que já nasceu num mundo sem passado e sem futuro. A sua luta é protegê-lo, acreditando que o rapaz pode ainda transportar a centelha que não o deixará resvalar para a barbárie. Ainda há esperança. O mundo não perderá a alma enquanto existirem homens bons.
O filme é uma adaptação fiel do livro de McCarthy. Talvez demasiado fiel, demasiado submissa e literal. O problema é que não traz nada de novo, não expande o livro, não o complementa. Não há dúvida de que preferiremos sempre o livro ao filme, ainda para mais tendo sido escrito por Cormac McCarthy.
Ora, o caso de Manoel de Oliveira é exemplar nesta história das adaptações de livros para o cinema. Fez inúmeros filmes partindo dos livros da Agustina Bessa-Luís e nunca teve pruridos em meter a sua colherada, em fazer trinta por uma linha, em ser livre, criando sempre um filme original (goste-se ou não) que não teve de fazer vénias à literatura. Isto sim é ambição e criatividade.