sábado, 15 de janeiro de 2011

Dê lá por onde der

Woody Allen regressa à cidade de Nova Iorque, depois do desastre de Barcelona. "Whatever works" é uma comédia luminosa e acelerada conduzida pelo misantropo Boris, sarcástico e até um pouco zen, que encaixa que nem uma luva em Larry David (co-criador de "Seinfeld"). Faz lembrar o Woody Allen/personagem dos primeiros filmes, com os seus tiques existencialistas e desaguisados mentais.
A história é feliz, mesmo quando parece descambar em tristezas, cheia de personagens cómicas e um pouco bizarras, como Marietta, a mulher sulista, encornada e com escrúpulos, que depois de morder a Big Apple se transforma numa sofisticada artista da fotografia e da alcova. O argumento é um pouco inverosímil (às vezes, como a própria vida), mas isso é um trunfo. É com gosto que nos deixamos enredar naquela trama de conto de fadas moderno, onde todos conseguem encontrar o seu lugar, dê lá por onde der.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

José & Pilar, Pilar, Pilar...


O documentário de Miguel Gonçalves Mendes entra na casa e na vida do casal José Saramago e Pilar del Río. A câmara segue Saramago, que incuba e escreve a história do elefante quinhentista que suportou uma viagem de Lisboa a Viena, e segue a mulher, que gere, incansável, a agenda a estoirar pelas costuras do marido-nobel.
O filme flui de forma natural, sem grandes artifícios. Somos levados num torvelinho de viagens e de eventos onde invariavelmente Saramago é posto a uma secretária a assinar livros. Pasmamos perante aquele octogenário que alinhava em tantas viagens e que aturava, com um sorriso benévolo, tanta imbecilidade e falta de senso.
Mas Pilar explica, na sua voz acelerada de espanhola, cheia de vida, que parar é morrer. E era Pilar quem preenchia o ecrã e que lhe dava vida, era ela quem levava Saramago, quem não o deixava parar, nem morrer. Saramago parecia estar numa resignação feliz dentro daquele circo mediático. Impressiona o seu rosto de velho, com uma qualidade de réptil venerando (penso em tartarugas), que se enternece com a mulher que ama. Diz frases enxutas e eficazes que saem de um "caldo requentado" que se serve aos jornalistas, mas as mais belas serão sempre para Pilar.


"Encontramo-nos noutro sítio..."



sábado, 8 de janeiro de 2011

Sacrebleu!

Em 2009, a Cinemateca Portuguesa e o Programa Gulbenkian Ambiente organizaram um ciclo de cinema dedicado à temática ambiental. "Le monde du silence", documentário de 1956 de Jacques-Yves Cousteau e Louis Malle, merece um apontamento pela galhofa (em espanto) que proporcionou. O filme acompanha as incursões por mares e oceanos da embarcação Calypso, comandada pelo oceanógrafo francês de icónico barrete vermelho.
O título poético do documentário predispunha-nos para um mergulho beatífico nas profundezas do mar silencioso e não ficamos defraudados: o mergulho é hipnótico e azul. Mas sucedem-se alguns episódios bizarros, impensáveis, incríveis, que nos deixaram de boca aberta.
Veja-se a cena da morte de uma baleiazinha, acidentalmente trucidada pelo Calypso. Como se não bastasse, assim que viram tubarões a rondarem o petisco, a tripulação de garridos cuecões de mergulho acorre numa fúria assassina contra os pobres predadores, deixando o ecrã a escorrer sangue. Outra cena memorável é quando os exploradores, na ânsia de descobrirem novas espécies de peixes, largam dinamite num lago (uma prática bem portuguesa). Bum! e é vê-los a recolherem os peixes traumatizados e a enfiarem-nos em frascos com formol ou lá o que era. Há aquele momento arrepiante em que os mergulhadores martelam corais, furiosamente, e há uma cena em que chegam a ludibriar um volumoso mero que se afeiçoou a eles e que não os largava nem por nada...graças à legendagem, houve um bónus de riso, quando o mero surgia com o mimoso nome de "Jojó".

Jacques-Yves Cousteau e o seu barrete vermelho fazem parte da minha infância. Foi uma figura de relevo da oceanografia, ajudou a divulgar os oceanos e as suas maravilhas, mas, neste filme, Costeau e a sua tripulação mais parecem uma trupe de sádicos malfeitores.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Marginal



Atravessando a Marginal, a 60km por hora, começa a tocar no rádio a valsa do "Padrinho". Mesmo a calhar, naquele horizonte de nuvens cinzentas, com as ondas amarelas em tropel. Na curva do Mónaco, extingue-se a valsa.
Uma trilogia ainda por ver de enfiada.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Que 2011 nos traga boas histórias para contar

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Knockout


Gosto de levar murros no estômago quando o assunto é arte. “The Wrestler” deixou-me de rastos, com uma valente hemorragia interna. Estamos ali por causa do Mickey Rourke, que naquele filme dá, de forma soberba, o couro e o cabelo (um longo e hipnótico louro platinado). Darren Aronofsky parece que goza connosco. Queremos logo ver a cara do Rourke e ele não deixa: nos primeiros planos, só o vemos de costas ou na penumbra. Quando finalmente encaramos “The Ram”, cada plano é penoso: vemos-lhe a cara intumescida, as mãos papudas de gigante, os olhos mortiços, o tronco colossal e tudo aquilo incomoda e fascina. Não se escapa à analogia do lutador com Jesus supliciado (põem-nos isso à frente dos olhos) e encolhemo-nos na cadeira perante o sofrimento deste Cristo “melgibsoniano”, não pregado, mas literalmente agrafado às mãos de um wrestler judeu. Adoro o grão deste filme, a sua verdade e violência, o facto de sentirmos que aquele actor “está mesmo lá”, como diz a Go-Go-dancer. Aliás, o wrestler e a dançarina de clube de strip jogam bem. Cada um veste (ou despe) um fato. A exibição e o artifício fazem parte do métier, mas se para ela a vida está lá fora, para ele o ringue é a vida que vale a pena. A cena final é magistral. Fiquei KO.


PS: Faltava este no arquivo. Um grande filme de 2009. Espero ansiosamente pelo novo do Aronofsky, "Black Swan".

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Buffalo Soldiers


"Miracle at St.Anna", um filme engagé à moda de Spike Lee, conta a história de quatro soldados afro-americanos ("fighting on arrival, fighting for survival") isolados numa aldeia da Toscana à mercê dos nazis, em plena Segunda Guerra Mundial. É um filme de história cheia e melodramática; é uma grande narrativa que atravessa o tempo e que vamos construindo como um puzzle.
Spike Lee cruza vários enredos: à cabeça, a homenagem/glorificação dos soldados negros (apadrinhados pela Primeira Dama Roosevelt) que participaram na Guerra e que morreram por uma América que ainda os olhava de lado; em pano de fundo, a história verídica do massacre nazi de centenas de civis na aldeia italiana de Sant'Anna di Stazzema, em Agosto de 1944. E aqui surge o "milagre": um rapazinho que sobrevive à mortandade e a outros percalços e que um dia é salvo por um "gigante de chocolate" (uma espécie de São Cristóvão) que o irá proteger.
É um filme duro, de guerra, mas está polvilhado de magia, de estranheza, de fé. Gostei disso. E gostei daquele plano onde os quatro soldados, fingindo olhar para cartazes de propaganda, nos olham num silêncio duro de ajuste de contas, à Spike Lee.